sábado, 5 de janeiro de 2008

Por que prefiro os meus amigos

Sempre fui um admirador dos quadros de Robézio Marques e da música de Herveson Santos, o Baxim. Gosto, acho belo Gustav Klint, Volpi... embora nunca tenha visto um original sequer. Gosto do que pode fazer um John Lennon, um Villa Lobos. Mas sempre tive um apreço maior pelos mais próximos. Um amigo, formado em sociologia, com espírito de antropólogo e mestrando em história, o Delano Pessoa ―irmão de outro grande amigo e colega de faculdade, músico, batera de primeira linha e estudioso de italiano, Davi Pessoa― passou a se dedicar à leitura das imagens de Raimundo Cela. Belo sim, nosso. Os quadros dele sempre me lembram os livros do Aluísio Azevedo, um mestre para mim. Mas meu apreço pelos mais próximos sempre me fez preferi-los aos mais famosos.

Talvez pelo meu paladar mais adaptado aos de fora dos grandes círculos da Ignês Fiusa; ainda que alguns destes lutem desesperadamente para entrar nos círculos seletos e seletivos dos glorificados, como é o caso de Carlos Emílio. O nosso marginal, ou melhor, o marginal e nosso.

Talvez pelo meu apreço pelo que é nosso, como diria Zerivan, amigo e pesquisador de Cordel, “um sentimento bairrista”, talvez. Ou mesmo, e tenho principal apreço por essa versão, minha preferência a cultuar os vivos, e dentre esses, os conhecidos.

Talvez por entendê-los. Talvez por um desejo recalcado de que eles fizessem o mesmo e me pusessem na sua estante de preferidos e prediletos, esperança vã ou pretensão vaidosa.

Mas eu gosto de ter, na minha coleção de cds, os da minha geração. Alcalina, 1295, 2Fuzz, Macula, Jácio Cidade, Teófilo, do Piauí, Juliano Goulart, de Brasília, Carol Peryer, da Bahia, Enquanto a cidade dorme, coletânea das parcerias de Alan Mendonça com músicos como Sávio Leão, Calé Alencar etc, Lamentos do Mucuripe de um outro poeta-DJ Emocore, Pingo de Fortaleza, Giramundo, que ajudei a produzir, O circo vai pegar fogo, que ajudei a compor, O Quarto das Cinzas, com quem guardo muitas afinidades, Argonautas...

Gosto de ter, na minha estante de livros, um Luciano Bonfim, um Pedro Salgueiro, um Dimas Carvalho, um Nuno Gonçalves, um Alan Mendonça, um José Leite Neto, um Ivaldo Ribeiro, Carmélia Aragão, Carlos Emílio, Tavinho Paes e Mônica Montone, do Rio, Luiz Reis, de Brasília, Trazíbulo e João de Moraes Filho, da Bahia...

Ler sobre Aurora Zogoiby, a artista plástica indiana do romance de Salman Rushdie, me fez querer ter em casa quadros de amigos como o de Ed Ferreira que penduro na sala junto a ampliações das fotografias coloridas manualmente pelo tchecoslovaco Jan Saudek. Quero sim um Weaver Lima na sala, peças de Waléria Américo no corredor das estantes e os imensos papéis-de-pão a óleo de Robézio Marques no quarto de estudos.

Fanzines de Ayla Andrade, Uirá dos Reis, Marcelo Bittencourt e da fanzineira-mor, a que nos inspirou a fazer fanzines, a toda a nossa geração, a escritora delicadíssima e cheia de imagens singelas dignas de um Monet literário Fernanda Meireles. Vídeos-poemas de Mardônio França, Sabina Colares, Henrique Dídimo e até (pasmem) de Eduardo Jorge na estante da sala de visitas.

Simone, minha mulher antropóloga, reclama que a casa toda fica parecendo um consultório. Cheio de revistas, livros e quadros. Para isso tenho uma resposta quase-imediata, essa talvez a versão mais sincera: é a maneira de ter meus amigos todos bem perto de mim.

léo m.
natal de 2007

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

continuo tropeçando sempre naquele mesmo passo tantas vezes ensaiado....
“Debate-se
e arrebenta, arranha
dói e não cala.
Os olhos
para fora
fecham-se
teimam
e nada os consola.

Estou só
a sensação imensa do só
e nesta terra vasta
os campos são pálidos.

Estar só
é não ter raízes.
Como pode um rizoma ser feliz
se é impossível ser feliz sozinho?
Como pode um rizoma viver feliz sozinho,
Se só a dois é que se morre... ?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Ontem à noite, assisti até altas horas, num canal que não me lembro qual, a um filme chamado “Vanilla Sky”. É incrível como vamos nos construindo a partir de sugestões externas que respondem a nossas ânsias internas. Processos de identificação que partem de nós, projeções fantasmagóricas de nossos maiores anseios, nossos maiores medos. E escrevi esses versos depois de uma sessão ininterrupta de 20 minutos de choro sem poder me conter. Uma explosão. É incrível a sensação que o choro pode provocar de que o tempo rompeu-se mais uma vez, de que o universo caminha, as coisas mudando, novas águas, novas chuvas. Aprendi mais uma vez o que havia esquecido: a grandeza do detalhe, o peso do pequeno, a infinitude de um gesto no rosto, um abraço (dado ou negado), um beijo.

Todo distanciamento é bem vindo. É uma maneira de ver melhor o que está perto. É uma maneira de chegar mais perto.

Entendi o mais importante: que o universo caminha, sempre. Entendi que sou (que somos) sempre vulneráveis e que o amor será sempre um desconhecido. Entendi, como o filme falou, que os corpos fazem promessas, mesmo que não ditas, promessas silenciosas. E que o romantismo original não era piegas, mas um sonho tornado real. Entendi que o segundo é precioso, assim como a lágrima. Aprendi, por fim, que chorar é romper a casca e renascer; que o choro é a marca que o tempo tem para nos dizer de alguma mudança; e que a lágrima é sempre o mais secreto brinquedo de uma criança.

a simone rodrigues passos, os meus dias...
de perto esse mundo é muito longe

livia nogueira
Chorar
é romper a casca
e nascer.

O choro
é a marca do tempo.
A lágrima
é o segundo doendo
Desenraizar-se é o movimento mais doloroso de uma árvore. Não porque sua raízes sejam cortadas. Não porque ela perca seu apoio, seu chão, sua identidade territorial. Porque ela tem que retraí-las para dentro de si, como tentáculos. Recolhê-las depois de tanto espriguiçar-se. É o movimento mais doloroso de uma árvore: fixar-se para depois se ir como um rizoma, uma semente. Diminuída, como se não tivesse nascido, como se não tivesse existido. Involuindo. Vai ver, as árvores mais felizes são aquelas que têm raízes aéreas.