quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Tirania
é peidar no ar-condicionado do carro.

Despotismo
é peidar no ar-condicionado do carro
e perguntar "Quem peidou?!"

Revolucionário
é aquele que peida no ar-condicionado
e trava as portas do carro.

domingo, 5 de agosto de 2007

extraído do "Livro Estranho"

1

Esses, por certo, hão de saber quem são,
de onde vieram,
aonde vão.
Pois parecem felizes. E eu, quem sou?
De onde vim eu?
Aonde vou?

Às vezes me pergunto, a mim mesmo e, cansado
do silêncio da espera indefinida,
olho a sombra que vai, tal qual a minha vida,
negra e longa arrastada à margem dos caminhos,
sem saber de onde vem -por sobre abrolhos,
sem saber aonde vai -por sobre espinhos...
E a sombra esboça um gesto amargurado
de quem esmaga lágrima nos olhos...

Oh! Os que vão a rir hão de saber quem são
mas, ai! Eu que soluço arrastando-me a esmo,
sei apenas que sou um estranho a mim mesmo.


2

medir um verso é retocar uma flor


3

no meu caminho
há tanto espinho,
há tanto espinho
no meu caminho,
que eu erraria
-por certo creia-
que eu erraria
minhas passadas
pisando a areia
de outras estradas


4


Coração, nós não podemos
chegar juntos ao destino,
eu já velho, tropeçando,
tu correndo, inda menino...


5


ó! Meu navio
de velas brancas,
foge do cais...
O mar é largo
como teu sonho
teu sonho é lindo,
não voltes mais!...


6

Morre a tarde de inverno alva e fria. Do Oriente
surgem nuvens de chumbo. A luz do sol coada
através do mormaço enerva a alma da gente...
sopra o vento em surdina e cala a passarada.

Agora relampeja. Há névoa na esplanada.
Uma tristeza infinda impregna o ambiente.
Rouco rola o trovão na planície encharcada
e a chuva vem cantando uma ária plangente.

Cada gota a bater sonora no telhado
lembra um dedo indeciso apalpando o teclado
de minh'alma de artista, em ébano e marfim...

E eu penso no que sou, no que quis ser na vida
e sinto um tédio profundo, uma ânsia incontida
de voar, de fugir para longe de mim.


7

Quando passas branca e leve,
leve e branca a me fitar,
passas e eu fico pensando
na beleza desses olhos,
na tristeza desse olhar...

Olhos negros como a noite...
Olhos tristes como o mar.



Oscar de Oliveira MAgalhães
Ubajara-CE, Serra de Ibiapaba, 1901
what i am to you
its not me

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Diálogos de João

1.

− Pai, onde é a casa do pincel?
− É ali na outra rua.
− E onde é a minha casa?
− É ali, na outra rua.
− E onde é a sua casa?
− É lá em Piripiri.
− E onde é Pi-i-Pi-i?
− É lá no Piauí.
− E onde é o Piauí?
− É lá no Nordeste.
− E onde é o Nodeste?
− É lá no Brasil.
− E onde é o Brasil?
− É na América Latina.
− Pai, e onde é a lata do gato?

E ele repete esse diálogo até hoje. Talvez se lembre dele para sempre.




2.

Noam Chomsky tinha razão.

− Tio Léo, quem é o motoqueiro?
− É o homem que dirige a moto.
− E quem dirige o carro, tio Léo?
− É o motorista. O motorista dirige o carro e o ônibus. Quem dirige o caminhão é o caminhoneiro.
− É o caminhoneiro, tio Léo?
− É.
− E quem dirige a moto, tio Léo?
− Quem dirige a moto é o motoqueiro.
− E quem dirige o trem?

E repete: e quem dirige o trem, tio Léo? É o trenzeiro?
E continua: e quem dirige o... o velocípede?

− Sabe quem é, tio Léo? Sabe quem dirige o velocípede, tio Léo?
− Quem é?
− É o velocipedezeiro.

terça-feira, 31 de julho de 2007

a mulher no espelho

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se nos espelhos.

Cecília Meireles

um poema para Sartre

O que pode um poema?

O que pode um poema
diante da morte?
O que pode um poema
diante do medo? Da fome?
O que pode um poema?

O que pode um poema
diante da dor
de ver seu grande amor
chorando?

O que pode um poema
diante da flor
que se vê, com o tempo,
murchando?

Pra mudar o que foi
um poema pode nada.
Um poema pode muito
para mudar o que é.

domingo, 8 de julho de 2007

as palavras esquecidas

As palavras saem
bandeiras esfarrapadas
e alcançam o mar
com a graça de um mergulhão e um peixe na boca.
As palavras devoram-se.

Daqui de cima
é mar a dar na vista
- Não senhor! Nenhuma caravela...
- Sigamos...
haveremos de encontrar

Continuemos...
nada mais,
que tudo acontece sem o nosso consentimento.

Essa força que vem, que está, aparece e vai
nos arrasta pra longe, pra fora, pra além.
- Vamos!
Ruge a força a repetir
- Vamos!
E temos que ir.

Lentos como passos de barcos a remo...

Um cardume de mãos invisíveis
se move dia e noite
semeando suas sementes.
Canta Jorge, o bucaneiro

- Corsário ao mar! Corsário ao mar!
Os marinheiros se assustam com o alarde.
“Precipitados se precipitam no precipício do princípio dos tempos”,
diz Uirá, o capitão.
Que os Santos Reis o guiem!

No início eram cachoeiras...
Cada palavra era uma ilha pra naufragar.

O mar se estende sobre os olhos como uma cama vazia, macia e tola
- Um novo amor comeu meu vazio
e um outro vazio comeu meu novo amor.
Chora o marinheiro.

E a nau segue.
Sem remo, sem vela, sem rumo
pelo oceano fecundo navegar.

Vai cega, vai louca
pelo mar sem mar a boiar.
Vai sem leme.

Estrelas no céu já não existem
já não existem mapas a guiar
bússolas e esquadros se perderam.

O bucaneiro e os marinheiros
já abandonaram a nau
certos de que o naufrágio virá.
Mas ele não vem, nunca.
Porque a morte é a eterna espera de si mesmo.

Vai-se a nau
ao sabor das correntezas e dos ventos.

Vai cega, sem intento,
a ferir mortos, vivos e doentes.

Vai surda,
levando nós,
os tristes filhos dos contentes.