Pessoas indo, pessoas chegando. A gente ocupando espaços outrora ocupados pelos que nos protegiam, pelos que nos guiavam. E a gente tendo que aprender a guiar a si mesmo e a guiar outros. É uma época estranha. Muito estranha. Uma época em que se funda a poética do estranhamento. O estranhamento com que Cesário Verde olhava pras coisas. O horror com que Fernando Pessoa via as coisas. A modernidade, a máquina, a fábrica, as luzes incandescentes da boemia, o bafo morno dos bueiros pelas vias.
O primeiro sinal foi andar a pé pelas praças e ver a multidão de jovens não muito mais jovens que eu vestidos de preto, todos, bebendo vinho barato e achando o melhor vinho do mundo, bebendo cachaça, bebendo cerveja e chegando tarde em casa, e imaginar que esses ainda há pouco, quando eu ocupava aqueles espaços, dormiam cedo assistindo desenho animado e tomando leite no café-da-manhã, enquanto eu vadiava pela noite com dois reais no bolso, saltando das traseiras do ônibus pra não ter que pagar passagem, conhecendo o dono da boate e entrando sem pagar até a falência do lugar, encontrando amigos desencontrados, experimentando entorpecentes e entorpassados na minha curta juventude transviada. Ah! As distorções das bandas de rock em que eu gritava ao microfone! E me ver ali, ocupando o espaço antes ocupado pelo senhor que passava e me olhava encantado de saudade, ou enojado pelo asco cético de que eu tivesse algum futuro, cético de que aquela minha vida pudesse me levar a algum lugar do mundo.
O segundo sinal foi encontrar pessoas tão tributáveis quanto eu. Tão casadas quanto eu. Tão com filhos quanto eu. Outras pessoas que também já tinham feito sua escolha. Outras pessoas que não eram a minha escolha, mas que poderiam ser. Outras pessoas de quem eu não era escolha, mas poderia ser. Outras pessoas também interessantes, outras tantas boas amantes, outras mentes também tão sonhadoras quanto a minha. E cada um andando em sua via-reta-meta. Cada um tão bem composto em sua via, seguindo infinitamente a estrada cega. E sentir que tudo é tão fluido e tão fugidio e tão veloz e tão rápido e tão imenso, tão vário. E a gente inda menino diante da vitrine da padaria cheia de doces.... e tendo que escolher só um sonho, um mísero sonho nessa esteira rápida e volátil. De um mundo de superheróis a um mundo de supermercados. E a morosidade de seguir em frente olhando outros caminhos que se vão esvaziados e nós nos distanciando cada vez mais das esquinas originais.
O terceiro sinal, dos que vieram antes de nós seguindo na estrada e dobrando esquinas para nós inda invisíveis, para uma estrada além da que vivemos. O risco iminente de ir-se embora, de restar em nós tão pouca gente. Poucos dias antes e nós nos braços da infância nua e inocente. Ali, na extensa via e humilhados a ver o nosso guia assim cambiante. E nós, já deste lado da coroa, cumprindo o estranho rito de existir, nos vemos sempre e novamente obrigados a dar seguimento também àquilo que não escolhemos, àquilo que está por vir. Quando vislumbramos a ida do outro que nos precedia, vemo-nos qual alma danada, perambulando em nossa via perdida.
O quarto sinal são meus amigos saindo para o mestrado. E eu a publicar livros, na esperança vã de fundar academias com contratos temporários. Uma amiga que vai pro doutorado em Campinas. Um amigo que vai pra Pernambuco virar antropólogo. Uma colega que fica, um amigo que vai. Outro que já volta ― inda morna na memória a euforia de quando ele ia, ainda. Saber que se pode e não poder. Saber que é possível e não ser. Ser escritor e ser traído pelas palavras que escolhi para dizer. Notas boas. Notas boas em todo o processo. Tanto esforço e tanto aprendizado imaterial, eterno, quando o que se quer é a matéria, é o certo. Tanto saber e tanta nota boa para sucumbir num reles projeto. Esbarrei num ante-projeto. E é isso o que foi tudo. Não passou de um reles projeto. E tanto que queria ficar. Tanto que podia ficar. E tanto e tanto e tão e muito e contudo... eu fico aqui, tendo escolhido partir.
a palavra é o mundo em miniatura, um silêncio que aparece. as palavras são sementes de sentido.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Meu avô-materno era funcionário do DENOCS e vivia de cidade-em-cidade a construir estradas. Meu avô-paterno era um agricultor-feirante que só saiu de Pentecoste para morrer em cima duma cama, de acidente vascular cerebral, num quarto atrás do depósito de mercadorias do comércio do meu pai. Forças co-existentes em mim e materializadas no medo ancestral de se afastar daqui, na ânsia antíqüíssima de partir...
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
a pólvora
(para Tatiana R. Passos)
Ganhei dois pesos de chumbo essa semana
e ainda não sei pra que lado fica a fonte.
Estou certo mesmo quando reconheço o erro
e isso dói como prender o dedo à porta.
Como compreender o que não se encerra, o que não cessa?
Como entender o que só se encerra em si mesmo,
em silêncio, não se abriga, não se abre, não se apega, não se aninha?
Nem você nem eu sabemos da melhor escolha.
Trabalha-se com o que se tem
e às vezes, muitas vezes, quase sempre, aliás,
se quer mais,
e mais e mais...
Não sabemos do melhor caminho,
aprendemos e o fazemos como possível.
E isso dói como rasgar o dedo em cacos de vitrais.
Ainda é cedo, amor, já cantava Cartola.
Enquanto escuto essa música,
lembro de ti, em minha idade,
de mim na sua idade:
Você tem toda a razão, sim, toda a razão...
e tudo vai convergir para confirmar o que você diz
e todos vão co-agir para reafirmar o que você pensa
não só porque pra você a vida começa agora
mas porque você tem a idade das certezas,
a idade das verdades,
a idade de ferro,
a idade das muralhas.
Há sempre sábios e loucos terceiros a concordar com o que quer que seja,
loucura ou epigrama,
a concordar com qualquer que seja a nossa escolha.
em verdade, ninguém sabe mesmo a idade que tem.
e não se esqueça: a verdade é sempre verde, sempre.
(Um conselho é sempre uma forma de cuidar)
Guias? Discípulos? Não se pode escolher ser um-ou-outro ou um-e-outro.
Não nos cabe o direito de escolher.
Já disse outra vez e não canso de repetir:
Dois deuses acima de nós
disputam o controle de nossos atos,
o destino e o acaso.
Aprende sempre quem ensina
e quem aprende sempre ensina a si mesmo.
Amar é um segredo.
Amar é o exercício constante de aprender os silêncios.
Mas do silêncio sozinho
só pode vir
o erro.
E ainda assim
ainda assim
não descobrimos a pólvora!
16 de outubro
22h45
Ganhei dois pesos de chumbo essa semana
e ainda não sei pra que lado fica a fonte.
Estou certo mesmo quando reconheço o erro
e isso dói como prender o dedo à porta.
Como compreender o que não se encerra, o que não cessa?
Como entender o que só se encerra em si mesmo,
em silêncio, não se abriga, não se abre, não se apega, não se aninha?
Nem você nem eu sabemos da melhor escolha.
Trabalha-se com o que se tem
e às vezes, muitas vezes, quase sempre, aliás,
se quer mais,
e mais e mais...
Não sabemos do melhor caminho,
aprendemos e o fazemos como possível.
E isso dói como rasgar o dedo em cacos de vitrais.
Ainda é cedo, amor, já cantava Cartola.
Enquanto escuto essa música,
lembro de ti, em minha idade,
de mim na sua idade:
Você tem toda a razão, sim, toda a razão...
e tudo vai convergir para confirmar o que você diz
e todos vão co-agir para reafirmar o que você pensa
não só porque pra você a vida começa agora
mas porque você tem a idade das certezas,
a idade das verdades,
a idade de ferro,
a idade das muralhas.
Há sempre sábios e loucos terceiros a concordar com o que quer que seja,
loucura ou epigrama,
a concordar com qualquer que seja a nossa escolha.
em verdade, ninguém sabe mesmo a idade que tem.
e não se esqueça: a verdade é sempre verde, sempre.
(Um conselho é sempre uma forma de cuidar)
Guias? Discípulos? Não se pode escolher ser um-ou-outro ou um-e-outro.
Não nos cabe o direito de escolher.
Já disse outra vez e não canso de repetir:
Dois deuses acima de nós
disputam o controle de nossos atos,
o destino e o acaso.
Aprende sempre quem ensina
e quem aprende sempre ensina a si mesmo.
Amar é um segredo.
Amar é o exercício constante de aprender os silêncios.
Mas do silêncio sozinho
só pode vir
o erro.
E ainda assim
ainda assim
não descobrimos a pólvora!
16 de outubro
22h45
sofia
― Olhe para nós! Disse ele, nu, diante do espelho enquanto ela se lavava. Havia anos, eles repetiam o mesmo ritual. Depois do sexo, voltava-se a enxergar o corpo. No escuro do quarto, enquanto trepavam, o corpo era tão imenso, tão intenso, tão presente, real ―que ele não existia, não podia. Não se podia senti-lo.
― Olhar o quê? Intrigada, ela ergue rápido a nuca mas num instante volta a fazer o que estava fazendo. Ali, no bidê, absorta em lavar-se, não podia imaginar sobre o que ele falava.
― Olhe para nós! Seus olhos no espelho saltando das órbitas, redescobrindo o corpo tantas vezes visto. E se estabelecia ali um diálogo silencioso. Ele e o próprio corpo. Ele movimentava os braços, abria-os, erguia-os, apalpava, tocava, pegava. Sua barriga era tão grande que ele mal conseguia enxergar o seu pau, dali de cima; precisava sempre do espelho agora. E ela cada vez menos entendia. Passou por ele como se fosse algo comum e seguiu para a cozinha, acender um cigarro e fazer o café. Você quer café? Perguntou da cozinha. Ele inerte, repetindo sempre as três palavras.
Quando ela terminou de fumar o terceiro cigarro, olhando pela janela um casal de namorados trepando no quarto do prédio vizinho, ele chegou ainda nu por trás dela, ainda calado. Eles ainda estão lá, disse ela batendo as cinzas na xícara fria. Ele desviou o olhar e observou. Olhou para ela. Você ainda gosta de trepar comigo? Sem olhar para ele e soltando um baforada disse secamente que sim e não disse mais nada.
Ele bebeu água e ia voltar para o quarto quando ela severamente perguntou E você? E você, o quê? Perguntou ele. Você ainda gosta de trepar comigo? Ele lhe deu as costas, sem responder. Estava frio. Ele precisava se vestir. No frio, o corpo voltava a existir. E sentiu pena de si. Vestiu a camisa de botão com que passou o dia, pôs uma bermuda, calçou a pajero e saiu de casa.
Olhe para nós, Sofia! Foi o que ele disse antes de fechar a porta.
― Olhar o quê? Intrigada, ela ergue rápido a nuca mas num instante volta a fazer o que estava fazendo. Ali, no bidê, absorta em lavar-se, não podia imaginar sobre o que ele falava.
― Olhe para nós! Seus olhos no espelho saltando das órbitas, redescobrindo o corpo tantas vezes visto. E se estabelecia ali um diálogo silencioso. Ele e o próprio corpo. Ele movimentava os braços, abria-os, erguia-os, apalpava, tocava, pegava. Sua barriga era tão grande que ele mal conseguia enxergar o seu pau, dali de cima; precisava sempre do espelho agora. E ela cada vez menos entendia. Passou por ele como se fosse algo comum e seguiu para a cozinha, acender um cigarro e fazer o café. Você quer café? Perguntou da cozinha. Ele inerte, repetindo sempre as três palavras.
Quando ela terminou de fumar o terceiro cigarro, olhando pela janela um casal de namorados trepando no quarto do prédio vizinho, ele chegou ainda nu por trás dela, ainda calado. Eles ainda estão lá, disse ela batendo as cinzas na xícara fria. Ele desviou o olhar e observou. Olhou para ela. Você ainda gosta de trepar comigo? Sem olhar para ele e soltando um baforada disse secamente que sim e não disse mais nada.
Ele bebeu água e ia voltar para o quarto quando ela severamente perguntou E você? E você, o quê? Perguntou ele. Você ainda gosta de trepar comigo? Ele lhe deu as costas, sem responder. Estava frio. Ele precisava se vestir. No frio, o corpo voltava a existir. E sentiu pena de si. Vestiu a camisa de botão com que passou o dia, pôs uma bermuda, calçou a pajero e saiu de casa.
Olhe para nós, Sofia! Foi o que ele disse antes de fechar a porta.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
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