As palavras saem
bandeiras esfarrapadas
e alcançam o mar
com a graça de um mergulhão e um peixe na boca.
As palavras devoram-se.
Daqui de cima
é mar a dar na vista
- Não senhor! Nenhuma caravela...
- Sigamos...
haveremos de encontrar
Continuemos...
nada mais,
que tudo acontece sem o nosso consentimento.
Essa força que vem, que está, aparece e vai
nos arrasta pra longe, pra fora, pra além.
- Vamos!
Ruge a força a repetir
- Vamos!
E temos que ir.
Lentos como passos de barcos a remo...
Um cardume de mãos invisíveis
se move dia e noite
semeando suas sementes.
Canta Jorge, o bucaneiro
- Corsário ao mar! Corsário ao mar!
Os marinheiros se assustam com o alarde.
“Precipitados se precipitam no precipício do princípio dos tempos”,
diz Uirá, o capitão.
Que os Santos Reis o guiem!
No início eram cachoeiras...
Cada palavra era uma ilha pra naufragar.
O mar se estende sobre os olhos como uma cama vazia, macia e tola
- Um novo amor comeu meu vazio
e um outro vazio comeu meu novo amor.
Chora o marinheiro.
E a nau segue.
Sem remo, sem vela, sem rumo
pelo oceano fecundo navegar.
Vai cega, vai louca
pelo mar sem mar a boiar.
Vai sem leme.
Estrelas no céu já não existem
já não existem mapas a guiar
bússolas e esquadros se perderam.
O bucaneiro e os marinheiros
já abandonaram a nau
certos de que o naufrágio virá.
Mas ele não vem, nunca.
Porque a morte é a eterna espera de si mesmo.
Vai-se a nau
ao sabor das correntezas e dos ventos.
Vai cega, sem intento,
a ferir mortos, vivos e doentes.
Vai surda,
levando nós,
os tristes filhos dos contentes.
domingo, 8 de julho de 2007
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