1
Esses, por certo, hão de saber quem são,
de onde vieram,
aonde vão.
Pois parecem felizes. E eu, quem sou?
De onde vim eu?
Aonde vou?
Às vezes me pergunto, a mim mesmo e, cansado
do silêncio da espera indefinida,
olho a sombra que vai, tal qual a minha vida,
negra e longa arrastada à margem dos caminhos,
sem saber de onde vem -por sobre abrolhos,
sem saber aonde vai -por sobre espinhos...
E a sombra esboça um gesto amargurado
de quem esmaga lágrima nos olhos...
Oh! Os que vão a rir hão de saber quem são
mas, ai! Eu que soluço arrastando-me a esmo,
sei apenas que sou um estranho a mim mesmo.
2
medir um verso é retocar uma flor
3
no meu caminho
há tanto espinho,
há tanto espinho
no meu caminho,
que eu erraria
-por certo creia-
que eu erraria
minhas passadas
pisando a areia
de outras estradas
4
Coração, nós não podemos
chegar juntos ao destino,
eu já velho, tropeçando,
tu correndo, inda menino...
5
ó! Meu navio
de velas brancas,
foge do cais...
O mar é largo
como teu sonho
teu conho é lindo,
não voltes mais!...
6
Morre a tarde de inverno alva e fria. Do Oriente
surgem nuvens de chumbo. A luz do sol coada
através do mormaço enerva a alma da gente...
sopra o vento em surdina e cala a passarada.
Agora relampeja. Há névoa na esplanada.
Uma tristeza infinda impregna o ambiente.
Rouco rola o trovão na planície encharcada
e a chuva vem cantando uma ária plangente.
Cada gota a bater sonora no telhado
lembra um dedo indeciso apalpando o teclado
de minh'alma de artista, em ébano e marfim...
E eu penso no que sou, no que quis ser na vida
e sinto um tédio profundo, uma ânsia incontida
de voar, de fugir para longe de mim
7
Quando passas branca e leve,
leve e branca a me fitar,
passas e eu fico pensando
na beleza desses olhos,
na tristeza desse olhar...
Olhos negros como a noite...
Olhos tristes como o mar.
Oscar de Oliveira MAgalhães
Ubajara-CE, Serra de Ibiapaba, 1901
domingo, 5 de agosto de 2007
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