quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

sofia

― Olhe para nós! Disse ele, nu, diante do espelho enquanto ela se lavava. Havia anos, eles repetiam o mesmo ritual. Depois do sexo, voltava-se a enxergar o corpo. No escuro do quarto, enquanto trepavam, o corpo era tão imenso, tão intenso, tão presente, real ―que ele não existia, não podia. Não se podia senti-lo.

― Olhar o quê? Intrigada, ela ergue rápido a nuca mas num instante volta a fazer o que estava fazendo. Ali, no bidê, absorta em lavar-se, não podia imaginar sobre o que ele falava.

― Olhe para nós! Seus olhos no espelho saltando das órbitas, redescobrindo o corpo tantas vezes visto. E se estabelecia ali um diálogo silencioso. Ele e o próprio corpo. Ele movimentava os braços, abria-os, erguia-os, apalpava, tocava, pegava. Sua barriga era tão grande que ele mal conseguia enxergar o seu pau, dali de cima; precisava sempre do espelho agora. E ela cada vez menos entendia. Passou por ele como se fosse algo comum e seguiu para a cozinha, acender um cigarro e fazer o café. Você quer café? Perguntou da cozinha. Ele inerte, repetindo sempre as três palavras.

Quando ela terminou de fumar o terceiro cigarro, olhando pela janela um casal de namorados trepando no quarto do prédio vizinho, ele chegou ainda nu por trás dela, ainda calado. Eles ainda estão lá, disse ela batendo as cinzas na xícara fria. Ele desviou o olhar e observou. Olhou para ela. Você ainda gosta de trepar comigo? Sem olhar para ele e soltando um baforada disse secamente que sim e não disse mais nada.

Ele bebeu água e ia voltar para o quarto quando ela severamente perguntou E você? E você, o quê? Perguntou ele. Você ainda gosta de trepar comigo? Ele lhe deu as costas, sem responder. Estava frio. Ele precisava se vestir. No frio, o corpo voltava a existir. E sentiu pena de si. Vestiu a camisa de botão com que passou o dia, pôs uma bermuda, calçou a pajero e saiu de casa.

Olhe para nós, Sofia! Foi o que ele disse antes de fechar a porta.

3 comentários:

Raquel disse...

se eu fosse sofia eu diria outras palavras(kkkk...)

"olhe para nós!Disse ele, nu, diante do espelho enquanto ela se lavava."
Sofia terminou de se lavar e ele la diante do espelho.Então ela aproxima-se e olha para a imagem dele, no espelho, e pergunta:
- voce o conhece bem? o que vc acha de primeiro olhar melhor para ele e so depois olhar para nós?
ele vestiu a camisa de botão com que passou o dia, pôs uma bermuda, calçou a pajero e disse:
- vou ao psiquiatra!

leo mackellene disse...

seu final é melhor o meu. acho q vou incorporá-lo. rsrsrs

leo mackellene disse...
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