segunda-feira, 11 de junho de 2007

Fortaleza-Brasília

Escolhi o primeiro trecho por via térrea mais por questões financeiras que por questões político-filosóficas. Evidentemente, não poderemos fugir disso, mas...

Às 9:33 galgamos a última construção. Aqui, a cidade termina. Ali, o último muro.

Egberto e Francisco são meus vizinhos de viagem. Egberto, de Ibiapina, a Serra que separa o Ceará do Piauí, quando soube que sou escritor, esperou um tempo e sentou-se atrás do meu banco pra cantar uma canção a la Amado Batista, de quem se diz fã número um.

Ele é casado (sem aliança) pela segunda vez. Sua primeira mulher hoje vive em São Paulo com um filho seu e casada com um outro homem, me diz isso de olhos baixos e voz furtiva. Está indo para Brasília vender uma casa por 17 mil. “Porque se não a negada invade!” diz ele. Deixou sua mulher, Elane, em Fortaleza, com seu filho de um ano. Discutiram e no dia da discussão, dia 13 de maio, ela escreveu uma carta pra ele. Me mostrou a carta com água nos olhos. Letra com alguns erros de ortografia e veleidades literárias. “Foi legal o tempo que te conheci. O lugar inesquecível. O tempo deixou uma marca: nosso filho” essas coisas. Ele sente saudade. Passará 7 meses por lá e toca violão, compõe canções e gosta de Zezé Dicamargo (sua voz é até um pouco parecida! Arriégua! Nã!).

Francisco é um tipo de olhar ingênuo mas com certa ânsia de aprender e ensinar coisas. É um sujeito ligeiramente afeminado, de riso fácil, ajeita as mangas curtas da babylook não se sabe se por cacoete ou se por frio. Cabeleireiro que não concluiu o ensino fundamental, “parei na sexta série, eu parei!”. Gosta de cuidar do corpo e entende um tanto sobre alimentação. 34 anos e relutente quando sugiro que prepare cursos sobre culinária e saúde. Diz que o SEBRAE e o SENAC estão preocupados com a titulação e não com o conhecimento prático. Se diz sem cabeça para voltar a estudar e cursar uma faculdade. Nesse momento, duas professoras certíssimas de si, voltando de um congresso em Fortaleza e que descerão em Petrolina-PE, diz que ele está com baixa auto-estima. Me rio um pouco e retomo a conversa. O ônibus chega em Juazeiro do Norte-CE.
Quando voltamos pro ônibus, ele me dá uma edição sem data, capa-dura de um livro chamado “As hortaliças na medicina doméstica” dizendo que “tem também ‘as frutas na medicina doméstica’”. Mas que ele não tem.

4 comentários:

Diana Valentina disse...

Há muito tempo qu não vinha por aqui, mas agora é isitar certa todo dia.
:D
tu com as tuas palavras me fezaem viajar. mesmo mesmo.
pa dentro dessa tua viagem junto com as coisas que tu viu.
tu viu minha casa viu?
(porque na minha cabeça lá em cuiabá ainda é minha casa!)
:D
coloquei teu livro lá nos meus links.
te amo.
hoje mais que nunca.

leo mackellene disse...

vi sim, diana! em cuiabá, a terra do céu lilás, sua casa laranja.

Linda Graal disse...

o que me intriga é ouvir teu respirar qdo te leio...teu texto é inquieto e curioso...
enfim...bom lê-lo e comungar de teus encontros!!

Livia disse...

te adoro viu,senhor poeta.Imagino q sua namorada sente-se felix ao ver em seu orkut a palavra casado.bjux Livia Lopes